VILA VELHA DE RODÃO

“Esta vila é indubitavelmente muito antiga, mas não há história que dê razão da sua história. Entendem alguns antiquários que a palavra RÓDÃO vem de Rodium , antiquíssima cidade romana.

No artigo Redinha narramos o que os antigos acreditavam com respeito a Herodes, um dos verdugos do drama do Calvário. Pois também em Vila Velha de Ródão existe uma lenda equivalente, baseada nos dizeres da parte ll da Monarquia Lusitana.

Na parte propriamente histórica, nada temos a objectar. Todos nos dizem que Herodes Antipas ll foi deposto por Caio Calígua, e toda a gente letrada sebe que esse foi o Herodes déspota, inimigo de Cristo, e degolador de João Baptista. Um tigre, o terrível déspota. E que repugnante vida a sua ! Tinha ele uma filha tão formosa quanto pervertida. Herodias se chamava. Concebeu ela uma paixão sensual por João Baptista, e empregou todos os meios de sedução, que baldados foram. O mancebo, cuja religião, princípios de moral, tradições pátrias e natureza honesta eram radicalmente divergentes da disso lutacriatura, repeliu as tentativas luxuriosas da bela cortesã.

Jurou ela perdê-lo. Herodes Antipas ardia em encestuosos desejos e fazia grandes esforços para lhe obter as boas graças e as torpes condescências. Herodes encontrou portanto o suspirado meio de vingança. Certa noite, no mais vergonhoso cúmulo de uma orgia, Herodes rojava-se aos pés da filha, devorando de infamíssima febre de possuir aquelas carnes resplandecentes de mocidade e formosura.

A devassa sorriu e quando lhe proponha que exigisse o que quisesse em troca dos seus favores, ela exigiu-lhe que lhe mandasse apresentar a cabeça de João Baptista.

Poucas horas depois estava feita a sua vontade. Um escravo oferecia-lhe a bela cabeça do mancebo, em uma salva de prata.

Desapossado dos seus estados, Herodes Antipa ll passou para a espanha, mas nem Josefo nem Adão Vieneuse, nem Morales, nem Niceforo Laymundo Ortega nos declaram o nome das povoações onde viveu o réprobo e a sua incestuosa companheira.

Este último e tão celebrado escritor, apenas diz: “Herodes, fugindo da face de Deus, viveu em Terragona, em Mérida e foi torpemente assassinado em uma cidade ou povoação lusitana, chamada RHODIO”.

Dá-se, porém, a complicada circunstância de haver em Portugal, antiga Lusitânia, várias povoações com o nome de RÓDÃO , e muitas quintas e casais denominados RODA.

Em Vila Velha de Ródão há um jogo que dizem ser a sepultura do tal Herodes. Outras terras dirão o mesmo, pelo menos todas as que têm o nome desta. Não faz mal ...”. (Arquivo História Pátria – 1902).

“E no próprio nome se mostra que o local era já habitado em tempos muito antigos. No mesmo Dicionário de Bento Pereira, citado anteriormente, lê-se que Rodiu-ii (Rodium ?) designou RÓDÃO, CIDADE ANTIGA DE Portugal, mas nenhum elemento elucidativo conseguimos obter, nem sequer a localização dessa suposta cidade antiga, o que faz prevalecer a dúvida sobre a origem do mesmo nome”. (Dr. Xavier Fernandes – 1944).

Vila Velha de Ródão, tem o rio Tejo a seus pés, num quadro de extraordinária beleza e singularidade. A Vila olha-o diariamente, num ritual de revelação estética e frescura. Para melhor admirar a inesquecível panorâmica, passeis até às majestosas Portas do Ródão, onde o rio estreita, investindo contra as rochas, que o acariciam na passagem.

As suas íngremes margens cobrem-se de oliveiras, acentuando a atmosfera bucólica que se respira no local.

Igual referência merece o património histórico da velha vila. A única torre do antigo Castelo, debruçado sobre as Portas de Ródão, em avançado estado de degradação ( e agora em fase de reconstrução pela autarquia rodense), é sinal da ocupação remota do povoado. No cume da serra onde ela se ergue, perto da Ermida de Nossa Senhora do Castelo, padroeira da aldeia de Vilas Ruivas, e a mais antiga do concelho de Vila Velha de Ródão, desfruta-se também um deslumbrante horizonte sobre o rio e montes circundantes.

No seio da vila levantam-se monumentos de grande expressão arquitectónicas. A igreja matriz pertenceu à Ordem dos Templários e, depois à Ordem de cristo. O discreto portal granítico da frontaria esconde um interior de três naves e pilares de secção circular, bem ao estilo seiscentista. Antes de visitar as povoações de Monte de Famaco, Vilas Ruivas e Foz do Enxarrique, importantes centros arqueológicos do paleólitico, tome nota do pelourinho gótico, que no seu corpo tem esculpidos o brasão e as armas da Vila.

A sede do concelho de Vila Velha de Ródão está desdobrada em dois aglomerados populacionais: a vila propriamente dita, que sobe pela serra, e Porto do Tejo, que nasceu do tráfego fluvial anterior à construção da ponte e depois se desenvolveu ao longo da estrada.

A navegação no rio era muito importante. Os barcos portugueses subiam o Tejo até Alcântara, negociando com minério de ferro, madeira, cortiça, azeite, vinho, sal e lã.

Os rebanhos que vinham de transumância no serra da Estrela e se dirigiam para o Alentejo atravessavam o rio numa barca e chegavam a levar dois ou três dias para passar.

A construção do caminho de ferro e da ponte ligando as duas margens, em 1888, acabou com a navegação no local, que passou a ser apenas frequentado pelos pescadores, que apanhavam peixe abundante e saboroso, como barbo, boga, enguia, sável ,etc.

Hoje as águas estão muito poluídas, mas ainda se faz na região uma sopa de peixe que os entendedores consideram das mais saborosas de Portugal.

Do Castelo restam apenas as ruínas da velha medieval rodense, construída talvez pelo Templários. Conserva a de menagem, que, embora muito arruinada, preserva duas entaipadas seteiras abertas nos muros e uma ilegível inscrição gótica embebida, a grande altura, na face sul, sob uma fresta e acima do portal. Por todo o monte, chamado da Torre Velha, divisam-se vestígios de fortificações e estruturas.

O Tejo ainda há pouco que entrou em Portugal. Não existe estrada que o acompanhe de fronteira com a Espanha até Vila Velha de Ródão, que sabemos que a distância percorrida pelo rio desde a barragem de Cedillo (Espanha), que divide os dois países, até à vila não vai muito além dos 15 quilómetros. Eis-nos então em Vila Velha de Ródão, uma das muitas vilas que nasceram viradas para o Tejo.

É necessário subir a uma alta colina debruçada sobre o rio para ver o pouco que resta do castelo de Vila Velha de Ródão. A sua origem remonta ao início da nacionalidade e poucos são os dados que existem sobre o seu passado e arquitectura. As informações existentes fazem pensar que terá sido construída no reinado de D. Afonso Henriques, depois daquelas terras terem sido doadas `Ordem dos Templários, que ficaram com a obrigação de construírem um castelo para defesa do Tejo.

Em 1191, D, Sancho l acrescentou a esta doação a herdade de Açafa, onde estava incluída a Vila velhas de Ródão.

Tudo indica que foi já na vigência do mestre D. Lopo Fernandes que se concluíram as obras do castelo que compreendia para além deste, uma torre de menagem com a forma de um trapézio e uma muralha a envolver todo o conjunto. Porém, desta fortificação só restam vestígios da torre de menagem. Resta-nos imaginar como seria este castelo, senhor de uma ampla vista sobre o Tejo que prossegue o seu caminho até à foz.

As povoações desta região da Beira baixa vivem, na sua maior parte, predominantemente da agricultura, embora em muitas, sobretudo junto ao Tejo, o modo de vida tenha sido profundamente alterado nas últimas décadas pela introdução de várias indústrias.

Nas zonas rurais, a indústria tradicional, que funcionava apenas alguns meses por ano, era a dos lagares de azeite. No entanto, nos concelhos de Mação e de Vila Velha de Ródão essa cultura nunca foi explorada em grande extensão. Os vastos olivais que se debruçam sobre o Tejo e se prolongam pelas encostas e vales, desde Porto do tejo até Mação, onde actualmente confinam com o pinhal, foram plantados apenas nos últimos anos do século XlX.

Para proteger as oliveiras e as fixar à terra, evitando os danos das enxurradas, foram pacientemente construídas centenas de pequenos muros, destinados a segurar a terra nas encostas.

A criação de novas indústrias tem sido um factor importante no desenvolvimento local e tem contribuído bastante para a fixação das populações, devido à criação de muitos postos de trabalho.

Nos lagares, após a extracção do azeite, obtém-se o bagaço de azeitona, que é utilizado em rações para animais e como matéria-prima para a obtenção de óleos pesados. Também há na região fábricas de conserva de azeitona.

A maior fábrica destes sítios é a da Celulose do Tejo, que utiliza madeiras provenientes de outras regiões e movimenta muitas centenas de pessoas.

Antigamente, havia na região do pinhal diversas oficinas artesanais que tratavam as resinas e fabricavam aguarrás e pez-louro, mas actualmente já não existe nenhuma.

A proximidade de um grande rio determinou a localização nas suas margens de unidades transformadoras, para as quais era indispensáveis a presença da água. Nestas condições, temos ainda as Barragens do Fratel e de Belver e a grande Fábrica de Destilação de Resinas de Ortiga.

Nos últimos anos surgiram aqui diversas indústrias pequenas, sobretudo unidades de criação de gado suíno e aviários, mas há também fábricas de confecções, diversas serrações de madeira, etc.

Como complemento deste esforço empreendedor, estão a ser abertas algumas estradas que permitam mais fáceis acessos e melhores possibilidades de comunicação com outros centros.



Carlos Ribeiro

(enviado por: jorge cardoso jomaca@netcabo.pt)

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